10 de set. de 2011

vanitas vanitatum et omni

colagem e grafite sobre papelão

colagem e grafite sobre papelão
colagem e grafite sobre papelão
Ilustração pro blog "uma espécie de bazar", setembro/2011.
www.especiedebazar.wordpress.com

22 de ago. de 2011

minha casa sou eu

grafite sobre papel | 21x30cm
grafite sobre papel | 30x21cm
Ilustração pro blog "uma espécie de bazar", agosto/2011.
www.especiedebazar.wordpress.com

17 de jul. de 2011

Figura ao meio-dia

Acrílica sobre cartão | 42x29cm
Ilustração pro blog "uma espécie de bazar", julho/2011.
www.especiedebazar.wordpress.com

29 de jun. de 2011

Anda.

Colagem, acrílica e bordado sobre cartão
Ilustração pro blog "uma espécie de bazar", junho/2011.
www.especiedebazar.wordpress.com

21 de mai. de 2011

destruição/reconstrução

Colagem, acrílica e bordado sobre cartão | 42x31 cm

Ilustração pro blog "uma espécie de bazar", que estou participando junto com outras incríveis que também escrevem, desenham, bordam, etc. Todo mês um tema é proposto e as pessoas produzem dentro - e fora- das suas habilidades.

http://especiedebazar.wordpress.com/

=)

29 de jul. de 2010

O homem das geleiras ou providence

Colagem, acrílica e bordado sobre cartão | 26,5x35cm

Colagem #4/2010 

Pour l’homme des glaciers, elle la purifie, l’assoupit.

***

"Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo."

Caetano Veloso, "Livros" – 1999

***

"Depois ela contou-lhe seu sonho: estavam em algum lugar com Sabina. Num quarto enorme. No meio havia uma cama, parecia o cenário de um teatro. Tomas ordenou que ela ficasse num calito enquanto fazia amor com Sabina. Ela olhava e esse espetáculo lhe causava um sofrimento insuportável. Para sufocar a dor da alma com uma dor física, enfiou agulhas sob as unhas. Senti uma dor atroz disse ela, apertando os pulsos como se as mãos tivessem sido realmente machucadas. Ele apertou-a contra si e lentamente, sem parar de tremer, ela adormeceu em seus braços.”

Milan Kundera, "A Insustentável Leveza do Ser" – 1984 

***

"Durante um segundo de lucidez, tive a certeza de que havíamos ficado loucos. Mas a esse segundo de lucidez se antepôs um supersegundo de superlucidez (se me permitem a expressão), em que pensei que aquela cena fosse o resultado lógico de nossas vidas absurdas. Não era um castigo, mas uma dobradura que se abria de repente para que nos víssemos em nossa humanidade comum. Não era a constatação de nossa ociosa culpabilidade, mas a marca de nossa milagrosa e inútil inocência. Mas não é isso." 

Roberto Bolaño, “Os Detetives Secretos” – 1999

***

Das considerações sobre a procura angustiante pelo outro ou as escolhas entre viver com e viver só:
-  Estar só fortalece. 
- Para o homem das geleiras, ela a purifica, a suaviza. Ela, a providência. La providence, l’hasard.

15 de jul. de 2010

A juventude

Pirógrafo, gouache e aquarela sobre madeira

Pirogravura #1/2010

27 de mai. de 2010

Cache-cache

Colagem, hidrocor, nanquim e acrílica sobre papel | 24x34cm

Colagem #3/2010

“Cavalgava bem. Sou uma boa amazona, mas ele era tão bom quanto eu ou até melhor, não sei, naquele dia me pareceu melhor, galopar sem estribos é difícil, e ele galopou grudado no lombo do cavalo até que o perdi de vista. Enquanto esperava contei as guimbas que ele tinha apagado junto da cabana e fiquei com vontade de aprender a fumar. Horas depois, quando voltávamos no carro do meu pai, ele na frente, eu atrás, ele me disse que provavelmente debaixo daquelas terras jazia alguma pirâmide. Lembro que meu pai desviou o olhar da estrada para encará-lo. Pirâmide? É, ele disse, o subsolo deve estar cheio de pirâmides. Meu pai não fez nenhum comentário, eu, do escuro do banco de trás, perguntei por que ele achava isso. Ele não respondeu. Depois começamos a conversar sobre outros assuntos, mas fiquei pensando por que ele terá falado em pirâmides. Fiquei pensando nas pirâmides. Fiquei pensando no pedregal do meu pai, e muito tempo depois, quando não o via mais, cada vez que voltava àquelas terras ermas pensava nas pirâmides enterradas, pensava na única vez que o vira montando a cavalo sobre as pirâmides e também o imaginava na cabana durante o tempo em que ficara sozinho fumando.”

Roberto Bolaño, “Os Detetives Secretos”, pág. 149 - 1999


***

“Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder
E quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr
E eu sinto aquela coisa no meu peito
Eu sinto aquela grande confusão
Eu sei que eu sou um vampiro que nunca vai ter paz no coração”

Caetano Veloso, "Vampiro" - Composição: Jorge Mautner - 1979
 
*** 

"Quando terminei, não fez nenhum comentário. O que acha?, perguntei. Não sei, falou, e você, o que acha? Eu lhe disse então que achava que poetas eram uns hermafroditas e que só podiam se entender entre eles. Falei: os poetas são. Quis dizer: os poetas somos. Mas ele olhou para mim como se meu rosto não tivesse carne, fosse só uma caveira, olhou para mim sorrindo e disse: não seja cafona, Perla. Só isso. Empalideci, dei um pulo, só conseguiu me afastar um pouco, tentei me levantar e não pude, e durante esse tempo todo ele permaneceu imóvel, olhando para mim e sorrindo para mim, como se do meu rosto houvessem se desprendido a pele, os músculos, a gordura, o sangue, e só restasse o osso amarelo ou branco.

Roberto Bolaño, “Os Detetives Secretos”, pág. 170 - 1999
 

***

"Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima"

Paulo Leminski, “Caprichos e Relaxos”, pág. 89 – 1983 

***

Durante muito tempo eu não me era. Minha preocupação era “o outro”. Não existia necessariamente algo de filantrópico nisso. Talvez até o contrário. O medo era de decepcionar alguém. De magoar, trair, não merecer a confiança, desrespeitar, e, com isso, ser abandonado. Medo de ficar sozinho no mundo. Eu não existia sem ser através de alguém, sem um duplo, um companheiro. Um espelho.
Cada um que entrava na minha vida trazia a sensação de completude, de estar vivo. E quando ia embora, como a maré que baixa, levava tudo embora. Isso se repetia com amigos, amores, com todos e quaisquer que eu elegia. Cada partida era uma morte. Morri muitas vezes, de várias formas. Um dia, por conta de três, morri sete meses.
Enfim que o tempo, amigo, foi legal comigo e me ensinou algumas coisas. Não me deixo mais morrer por ninguém. Hoje, quem vem, se vai e anda - não me leva. Este que veio, ficou e fez do meu coração residência habitável (com tanta docura) também está indo agora. Mas o que existiu em comum ainda existe. Não encaixoto nada, não escondo fotos, nem apago mensagens, nem finjo que momentos divididos não aconteceram. Aconteceram e foram muito bem acontecidos.
Semana passada a Marília Gabriela disse numa entrevista que o amor, assim como a batata, também acaba. Acaba? Não que eu saiba. Eu escolhi não morrer, nem matar, mas transformar ele em rima, dentro de mim.
Hoje o que existe no meu peito é um buraco. Um tiro de 12, de saudades de coisas que foram e não vão se repetir. Alguém disse que a dor é certa, mas o sofrimento é opção. Mesmo nos momentos de dor certa, se me perguntarem “como vai?”, vou bem, ça va, ça marche. Mas é um jogo de esconde-esconde, cache-cache, enquanto o tempo se encarrega de fechar buracos e fazer nascerem as batatas.

2 de mar. de 2010

Avesso

bordado sobre cartão

Bordado #1/2010

Eu queria que a mão do amor
Um dia trançasse
Os fios do nosso destino
Bordadeira fazendo tricô
Em cada ponto que desse
Amarrasse a dor
Feito quem faz um crochê
Uma renda um filó
Unisse as pontas do nosso querer
E desse um nó

Maria Bethânia, "A Mão do Amor" - Composição: Roque Ferreira

***

O mais importante do bordado
É o avesso
É o avesso
O mais importante em mim
É o que eu não conheço
O que eu não conheço

Maria Bethânia, "O que eu não conheço" - Composição: Jorge Vercilo e J. Velloso


11 de jan. de 2010

Les herbes folles


Colagem #2/2010



Uma pessoa procura religião ou pelo amor ou pela dor, diz minha avó paterna. E, segundo ela, foi por motivos amorosos que ela passou a freqüentar a Seicho-No-Ie. Há mais de 30 anos ela acorda antes das 7h da manhã e faz as orações em japonês agradecendo os antepassados. Semanalmente comparece nas reuniões e prega para a família e conhecidos os benefícios dessa filosofia de vida – mas só nós, os mais próximos, sabemos que ela não aplica isso na própria vida. Durante os anos 90, o Clube Nissei Vicentino promovia reuniões da Seicho-No-Ie às segundas-feiras. Por um tempo, quando eu tinha pouco mais de 10 anos, minha mãe passou a participar destas reuniões também e, como eu não podia ficar sozinho em casa, ela me levava junto. Eu ajudava a arrumar as cadeiras de plástico antes do horário, a arrumar revistas e incensos nas mesas e ainda sei algumas músicas e orações de cor. Como não participava das cerimônias, eu ficava num canto desenhando ou às vezes com um primo ou alguma outra criança que também era obrigada a acompanhar os pais. Mas o máximo que eu conseguia ter de contato com alguma outra criança era pra pedir uma folha nova em branco ou algum lápis de cor e giz de cera. Mesmo assim só eu sabia o tanto que isso me custava: ficava ensaiando por muito tempo até ter coragem de falar com o outro menino, mesmo que fosse só pra pedir uma folha de papel.
Quando eu era pequeno tinha dificuldade para fazer amigos. Não sei se pela timidez (que ainda carrego até hoje, mas de uma forma bem resolvida) ou se por algum outro motivo desconhecido. Mas isso era fato: eu não tinha amigos. Lembro de inúmeros momentos em que meu pai me chamava no quarto pra conversar, fechava a porta e fazia a pergunta fatídica: por que eu não tinha amigos? E eu, com 8, 11, 12 anos, pelos tantos anos que essa situação se repetia, não sabia o quê responder e chorava.
No dia do meu aniversário de 7 anos, ganhei dois livros de colorir, uma régua da Turma da Mônica e duas canetas coloridas. Fiquei o dia inteiro sentado no quintal com meu cachorro, pintando o livro. Estes eram meus amigos: as canetas, o lápis, os livros de colorir, meu caderno de desenho e meu cachorro Apolo.
Fora eles, o que eu tinha de mais próximo de uma “amizade” eram os colegas da minha irmã, quatro anos mais velha. Quando meus pais deixavam, ia brincar com ela e seus colegas na rua. Essas relações me ensinaram coisas da vida: mesmo antes de pensar em dar meu primeiro beijo eu já sabia, pelas conversas que ouvia dos colegas mais velhos, o que era masturbação, sexo, menstruação, camisinha. Mesmo assim, eram amigos postiços. Não eram meus de verdade.
Um dia, ainda quando eu tinha 10 anos, fui com minha família numa reunião da Seicho-No-Ie. No final do encontro, junto com o lanche e café, vendiam-se incensos e livros com os ensinamentos e orações. Minha mãe, folheando um livro de orações de capa preta, achou algo e me chamou na hora pra ver. Estava lá, dividida em duas páginas: “Oração para fazer amigos”. Peguei o livro e li a oração uma vez. E li novamente, e por uma terceira e quarta vez. Lembro que, enquanto lia, pedia a “deus” – mesmo sem saber o que significava – para ele me ajudar a fazer amigos. Tentei decorar a “oração para fazer amigos” para poder repetir ela diariamente, até que conseguisse alcançar esta “graça”. Por dois ou três dias, eu acordava e repetia a oração. No outro dia já não me lembrava de algumas frases, até que me esqueci da oração por completo.
Nesses quase 15 anos algumas coisas mudaram. Logo depois apareceram os primeiros amigos – alguns deles presentes na minha vida até hoje. Por muito tempo, a idéia de perdê-los era como uma sensação de morte. Nunca consegui conceber a minha vida sem aquelas pessoas. Dentro desse medo, sempre me policiava para não desagradar ou falar alguma coisa errada. Para não ser rejeitado, fazia dos gostos deles os meus gostos. Só eu sabia o que foram os anos de criança solitária e quanto eles tinham me custado.
Ninguém sabe lidar bem com a rejeição. Quando levei um fora no meu primeiro namoro, custei 7 meses (e uma depressão) para superar a perda e entender que aquela não era a única pessoa do mundo.
Enquanto eu estava me recuperando de um fim de namoro não tão significativo, os outros estavam por aí experimentando coisas novas. De um lado eu vivia cheio de dedos para não decepcionar meus amigos e parentes, enquanto as outras pessoas, as que eu considerava “normais”, estavam por ai vivendo a sorte de todas as possibilidades de vida.
Demorei muito pra entender e respeitar meu tempo e minhas vontades, compreender que os processos da minha vida podem não ter a mesma velocidade que os dos outros.
Pensando agora, acredito que eu saiba por que me lembrei da “oração para fazer amigos”. Talvez naquele dia, no meu pedido inocente de criança, uma graça tenha sido concedida a mim. Foi ali que eu comecei uma grande amizade, a maior de todas, comigo mesmo. Uma pessoa procura religião ou pelo amor ou pela dor e, pela dor de ter vivido muito tempo sozinho, eu venho exercitando a minha fé em mim.
Em uma daquelas orações japonesas da qual ainda me lembro diz que você deve se reconciliar com todas as coisas do céu e da terra tudo se tornará seu amigo. Acredito que eu esteja no caminho.

17 de set. de 2009

Diamante verdadeiro

alta resolução

Retrato #1 - Les Petits Serins


“Voilà mon petit jaunet, mon petit serin, qui va rendre sa maman aussi bêtasse que lui, pour peu que cela continue.”

“Deveria sentir-me feliz e não o era. Parecia-me que minha mãe acabava de me fazer uma primeira concessão que lhe deveria ser dolorosa, que era uma primeira abdicação de sua parte ao ideal que concebera para mim, e que pela primeira vez, ela, tão corajosa, se confessava vencida. (...) Por certo, o belo rosto de minha mãe ainda brilhava de juventude naquela noite em que me prendia tão docemente as mãos e procurava estancar o pranto; mas parecia-me que não deveria ser assim, que sua cólera me deveria ser menos triste do que aquela recente brandura que minha infância desconhecera; e que, com minha mão sacrílega e furtiva, eu acabava de traçar-lhe na alma a primeira ruga e de ali fazer surgir o primeiro fio de cabelo branco. Essa idéia redobrou meus soluços e então vi mamãe, que nunca se deixava arrastar comigo a excessos sentimentais, dominada de súbito por minha comoção e tentando reter o desejo de chorar. Como sentisse que eu o havia notado, disse-me a rir: "Olha só o meu canarinho, que já ia tornando a sua mamãe tão boba com ele! Vamos ver, já que não tens sono, nem tua mamãe tampouco, deixemos de nervos, façamos alguma coisa, vamos pegar um dos teus livros"."

Marcel Proust - "À La Recherche du Temps Perdu: Du cotê de chez Swan", 1913

***

"Eu sou primeiro, eu sou mais leve, eu sou mais eu
Do mesmo modo como é verdadeiro
O diamante que você me deu."

Caetano Veloso - "Diamante Verdadeiro", 1978

***

Comecei a ler o "No caminho de Swann", primeiro volume da obra do Marcel Proust, "Em Busca do Tempo Perdido". Ao todo, são quase 3000 páginas divididas em 7 volumes que Proust escreveu durante 14 anos e que, ainda assim, morreu sem concluir. É a obra de sua vida. Proust criou um universo meticuloso sem precedentes, uma catedral em torno do "herói" do livro - e si próprio. “No caminho de Swann” aborda psicologicamente assuntos como a obsessão amorosa, o ciúme, incesto e homossexualidade, além de ser um relato sobre a alta sociedade. Mas, principalmente, a obra é um retrato detalhado sobre como ter novos olhos e olhares sobre os assuntos mais humanos possíveis. Demasiadamente humanos.
Tudo que está ali naquelas páginas pode (e deveria) ser experimentado. Aqueles relatos tocam em algo que independe da vontade: a nossa natureza. Aborda os sentimentos mais humanos (e "desumanos"?) com tamanha propriedade que a experiência do autoconhecimento ganha um gosto de novidade. Não sei se um dia conseguirei ler a obra toda. Talvez se leve uma vida inteira pra se ler na íntegra, e mais outra vida pra realmente entender como se pede. E como se deve.
A primeira parte do livro se destina às memórias do “nosso herói” quando criança. Os dias passados na casa de campo da família em Combray, junto aos parentes e do contato com o vizinho Swann – aquele através do qual o protagonista passa a enxergar o mundo. Nisso, revelam-se as dinâmicas das relações familiares: a obsessão pelo amor de sua mãe, a forma como sua avó coage o menino através do amor e o medo exercido pela figura paterna. O “herói” passa o dia inteiro ansiando pela chegada da noite, onde sabe que sua mãe vira ao seu quarto dar-lhe um beijo. E aquele é um momento mágico para o menino. Aqueles segundos dos lábios da mãe tocando seu rosto justificam a existência de tudo, de todas as horas angustiantes de espera. A mãe, vendo o sofrimento do filho diante do mundo, se emociona e resolve ler para o menino algumas fábulas infantis.
Há algumas semanas, alguém no twitter (não lembro quem) comentou que estava lendo o livro “O Clube do Filme”, do crítico de cinema canadense David Gilmour - e pensando em abandonar a leitura por não se julgar lá muito cinéfilo. Por esses dias, encontrei o livro numa vitrine e resolvi comprar. Quando o filho de David Gilmour tinha 15 anos, ambos enfrentavam uma fase turbulenta. Gilmour desempregado e sem vislumbrar qualquer oportunidade de colocação profissional, enquanto o filho tinha um péssimo rendimento escolar e não conseguia se encaixar dentro daquele começo de realidade “adulta”. Foi quando Gilmour tomou a decisão inesperada de tirar o filho da escola, com a condição que os dois passassem a assistir juntos pelo menos três filmes por semana. O cinema como forma de enxergar a vida: esse é o livro. E logo na orelha, o autor fala que fez uma entrevista com o cineasta David Cronenberg e, ambos com filhos crescidos, começaram a conversar sobre o processo da vida adulta. Gilmour falou que ter filhos, educá-los, implica em uma despedida após a outra: o adeus às fraldas, à mamadeira, à vida escolar, à família, à casa. O adeus ao ninho. E o Cronenberg deixou a pergunta: “mas será que realmente eles se despedem de casa?”.
Não tenho lá muita intimidade com crianças, dificilmente consigo me aproximar delas. Entretanto, gosto de observá-las de longe. E sempre acabo enxergando uma pontada de aflição no olhar de várias. A mim parece como um grito pra dentro, um grito de desamparo. A criança chora, a mãe palpita que deve ser por fome ou sono. Mas sempre acho que ali tem um apelo desesperado. Um pedido primitivo de socorro: como não se conhece o sentimento (nem a dor da experiência), só resta o choro. É um pedido que não pode ser atendido. Por mais que se receba todo amor do mundo, estamos fadados a conviver com o desamparo. Constantemente sair de ninhos, mesmo sem saber voar. E entre o ninho do alto da árvore e o ponto aonde se quer chegar (ou se obriga a chegar) existe o sentimento da queda.
Esses são “os meus pequenos canários” da ilustração. Como eles não sabem viver, gritam através dos olhos. Seus cabelos e roupas são vivos, mas o que fazer com a vida? Entre um ninho e outro, entre uma falta de chão e outra, alguém nos conta uma fábula e tudo fica bem. Mas e quanto não se tem ninguém pra nos contar historias, só nos resta a nossa vida.

5 de mar. de 2009

nunca é tarde pra chegar na festa


Colagem #01/2009

"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? E isso que faz con que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca."

(...)

"Para que o sentido dessas palavras ficasse absolutamente claro, Beethoven colocou antes do último movimento, a frase: Der schwer gefasste Entschluss - a decisão gravemente medida. A alusão a Beethoven era, na verdade, para Tomas um meio de voltar a Tereza, pois fora ela quem o forçara a comprar os discos dos quartetos e das sonatas de Beethoven.
Essa alusão era mais oportuna do que ele imaginava, pois o diretor era melômano. Com um sorriso sereno, res pondeu suavemente, imitando o som da melodia de Beethoven: Muss es sein? Tem de ser assim?
Tomas disse mais uma vez: Sim, tem de ser! Ja, es muss sein!"

Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser, 1984

***

"A Insustentável Leveza do Ser" foi o livro da minha vida de 2008. Durante anos tive curiosidade de ler, mesmo sem saber do que se tratava. Mas acho que não poderia ter lido em momento mais adequado: o livro cersiu e pontuou um momento de grande mudança em mim.
Por conta de uma sucessão de acasos ou por suas próprias escolhas, os quatro personagens - Tereza, Tomas, Sabina e Franz - experimentam de maneiras diferentes o peso e a leveza que delineia a vida. Tereza, sempre à sombra da figura cruel da mãe - a materialização das mazelas humanas. O relacinamento de Tereza e Tomas: a dor, a culpa, a obrigação de estarem juntos, a depedência, a impotência, a inércia. Sabina, cujo único objetivo (e orgulho) da vida era trair a tudo-e-todos, sem saber que estava se traindo. A metamorfose de Franz, o golpe transformador, a libertação, a independência. Tudo passava muito próximo de mim. Todos os personagens me eram, de alguma forma. E ali, no momento em que os fazia viver, eles estavam vivendo os seus momentos de redenção (para o bem ou para o mal) e eu os meus.
Passei um bom tempo da vida achando que eu era capaz de ajudar as pessoas próximas a mim. Ou pior: através de mim, elas poderiam se tornar alguém melhor. Algo que, se tivesse um nome, seria "prepotência infantilizada". E foram anos nessa história e inúmeras as pessoas (entre amigos, parentes, etc) que, diretamente ou não, participaram disso. Isso era praticado de várias formas possíveis, a ponto de viver situações pela pessoa ou estacionar a minha vida. E "ai" de quem dentro desta bolha recusasse essas minhas manifestações de "amor". Eu achava que era "amor", só hoje vejo que era falta - pelos outros e a mim mesmo.
Uma vez não conta, uma vez é nunca. Einmal ist keimnal. O primeiro ensaio da vida ja é a própria vida. Como aprender com os erros, sendo que as oportunidades nunca se repetem, jamais serão as mesmas? Como corrigir o erro dos outros quando quase para fazer os nossos próprios acertos são quase nulas?
A gente cresce e aprende algo óbvio e honesto: as pessoas só mudam quando querem. Elas carregam os seus motivos, expectativas, ansiedades somente até o momento que quiserem. Nossas costas são largas o suficente para aguentar o peso que colocamos nelas (repito, nós colocamos), mas inconscientemente ou não, sabemos o limite. Sabemos o limite entre o peso e a leveza insustentável.
No primeiro capítilo do livro, Kundera fala do "eterno retorno" do Nietzsche. Sem muitas firulas, toca no "einmal ist keinmal" de Tomas, pontuando que uma vida que desaparece não tem o menor sentido. Diante de tantas escolhas, a verdade entre aqueles personagens é a busca pela existência a qualquer custo, a busca por algum sentido para existir. E é isso que pontua hoje a minha vida. A MINHA vida. Muss es seis? Es muss ein!

27 de dez. de 2008

beat goes on


Colagem #02/2008

la fruit de la pass_on

***

Comprovantes e tickets de pagamento, post-it, páginas de lista telefônica e caneta esferográfica
Estou fazendo algumas tentativas para deixar de lado algumas limitações que me imponho - nas colagens e na vida.
Taí um projeto de primeira.

***

ÓTIMO 2009 pra todos que leem esse blog e a mim!
=)

22 de out. de 2008

moto-contínuo



Colagem #01/2008
"Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
antigamente eu era eterno"

Paulo Leminski - Distraídos Venceremos, 1987


***


No começo de 2007, assisti o "Maria Antonieta", da Sofia Coppola, em um festival de cinema em Santos, logo depois da inauguração do Espaço Unibanco aqui. Surpreendentemente, a exibição aconteceu semanas antes da estréia do filme no Brasil – fato raríssimo.
Como bom geminiano, fiquei curioso pelo filme depois das vaias em Cannes e opiniões controversas em tudo quanto era lugar. Entrei na sessão sem nada além da curiosidade e saí bem satisfeito: o quase retrato onírico da realidade (como em "Encontros e Desencontros"), a abordagem pessoal da personagem/História, os figurinos exuberantes, a pegada pop e tudo mais. Mas não conseguia digerir lá muito bem o que a Coppola queria com aquela quebra da narrativa do meio para o final do filme: as informações truncadas e a perda de cadência das ações provocaram uma estranheza, que muita gente na sala de cinema preferiu enquadrar como falta de habilidade da diretora. E ponto.
Fiquei com aquele final na cabeça e no estômago por uma semana, até que uma conversa com um amigo ajudou a encaixar as peças que faltavam. Em 2003, a Sofia Coppola registrou o acaso e infortúnios num momento da vida de dois personagens americanos desnorteados em Tóquio no "Encontros e Desencontros". Longe do país de origem, os personagens encontravam o incomum nas barreiras da comunicação, espaço-tempo, nas diferenças visuais e escolhas mais básicas como um copo de bebida. São personagens que não pertencem àquele espaço, e, indo além, não pertencem nem a si próprios. "Encontros e Desencontros" é um grande retrato de duas pessoas que não sabem onde-estão-e-para-onde-vão e por isso resolvem andar de mãos dadas.
Não tão distante destas figuras está a Maria Antonieta da H(h)istória. Com apenas 14 anos, distante de casa, prestes a se casar e ter a responsabilidade de administrar um país, mesmo sem ter maturidade para reger a própria vida. Toda a estranheza do final do filme é uma transcrição deste sentimento de não-pertencimento por parte de uma criança. Todos nós passamos por um momento na vida onde nos deparamos com "o mundo", com o terrível fato que a nossa vida está em nossas mãos. No filme, aquele momento de estranheza é o período de suspensão na qual o personagem está: um passo antes da perda da inocência, a transição entre a infância e a vida adulta.
Naquele momento, o filme veio de encontro a um turbilhão de coisas que eu estava vivendo: 2007 foi o meu ano da estranheza, o fim de um grande período de não-pertencimento que se arrastava há tempos. Não me sentia parte de nada, nem de mim. Culpava o mundo pela forma como minha vida se arrastava por aí, sem vontade. Nesse ano moribundo, somado ao fim da minha faculdade, tive problemas de estresse, perda de memória, dificuldade de concentração, e etc. Foram verdadeiros dias de Gena Rowlands no "Uma Mulher Sob Influência".
Além de todo o mal-estar comigo e com o mundo, eu fazia questão desfilar a minha tristeza por aí. Era um fantasma arrastando bolas de ferro por onde andava. Hoje consigo ler isso de outra forma – me faltava maturidade, coragem pra ver que a minha vida estava gritando para ser gerida e só eu poderia fazer isso. E ter a consciência disso mudou tudo.
O que seguiu foi um momento único de autoconhecimento, um mergulho grande e profundo. Foi o ano de colocar as cartas na mesa e ver o que ainda valia a pena continuar e o que já tinha morrido. E quanto já não fazia mais sentido. Com isso, também aprendi a treinar o desapego e exercitar a objetividade. Se tornou mais fácil fazer escolhas dessa forma. O ano de 2007 me obrigou a crescer e, apesar do medo diante da maior novidade da minha vida (ela própria), hoje quem me conhece sabe o quanto faço questão de gritar felicidade aos quatro ventos.
Esta colagem demorou quase dois anos para vir à luz. Não devido à complexidade da coisa, claro, mas por pura falta de tempo e organização. Ela acompanhou todo esse meu processo recente. Durante quase um ano, recolhi folhas de árvores por onde passei. Improvisei uma prensa no meio da minha sala usando duas listas telefônicas, jornais e o móvel do telefone, onde ficaram secando por semanas e depois se transformaram nesse peixe. Os ramos saindo da boca dele, que crescem e vão ficando coloridos, foram bordados à mão durante semanas – à custa de muitos furos nos dedos. E por último o carimbo, feito à mão, esculpido em borracha escolar.
Esse menino, segurando um peixe morto que cospe promessas de algo melhor, tem muito de mim. Além de ter as minhas células (rs) e as marcas do tempo, ele leva pra longe esses tempos vividos sem muita gana, representa o fim dos meus anos de suspensão. Cada ponto das flores bordadas e dos pedaços de folhas secas são testemunhas de um sentimento único, algo que nunca viverei novamente, já que o momento é outro – o de não ser eterno.
Noves fora, o desafio de hoje é saber o que fazer com as cartas em mão, sejam elas novas ou as que tiveram a sua fé renovada. Talvez eu ainda tenha muito de menino, mas o peixe que tenho nas mãos hoje é meu – infinitamente meu – e sei como extrair felicidade dele.

Não pretendo transformar isso num blog de auto-ajuda ou crítica de filmes. Minha única preocupação hoje é com a sinceridade – em mim e em tudo.

Um beijo pra quem é de beijo.
E estou de volta!

=)

1 de ago. de 2007

Celebração à engenharia elétrica e termodinâmica das paixões



Oh, L'amour!

Não queria machucar-te,
queria dar-te um beijo e um mar sem sal.
Uma pitada de sal, numa salada verde e então
me enganar de vez com você.

Fernando Paiva, jornalista, guitarrista, escritor, compositor e vários et cetera - "Mar sem sal", luisa mandou um beijo.

***

Existe uma colagem em trabalho de parto desde junho, mas logo vem à luz. Enquanto isso, o convite da festa do amor (ou da paixão? ou da dor?), na casa do Giovani. Bacana fazer o convitinho, festa mais bacana ainda. Dias de celebrar paixões - as que sempre começam e as que nunca terminam.

Se foram mais de seis meses depois da última colagem de fato. E eu prometi que "me" seria um ano bom. Nada extraordinariamente novo. Mas outro dia me peguei chorando no ônibus, de felicidade.

obervação para a posteridade 1.> não tentar controlar o cavalo, senão ele me morde.

***

Cinema

Não era a primeira vez e nem seria a última que ela passava aquele batom com brilho. Por mais que Olavo repetisse a todo instante o quanto detestava a textura e o sabor daquilo durante os beijos.
- Você está atrasada de novo, Luisa! Assim vamos perder a sessão!
- Eu não me importo, Olavo. Já vimos esse filme quatro vezes.

idem.

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Naquela noite, você quis me beijar e eu disse: "SIM!".
Naquela noite, você quis me beijar e eu disse: "sim".
Naquela noite, você quis me beijar e eu disse: "pois não".

ibidem.

16 de mai. de 2007

um aviso

Para as pessoas queridas que frequentam aqui: desde janeiro que não posto colagens. Esse é um ano de terminar coisas grandes (segundo o horóscopo que recebo por e-mail). Por isso a ausência. Desculpem.
Estou na metade de uma colagem nova, que quero postar logo. Faz falta pra mim.
Por enquanto, o que eu tenho é isso: http://www.youtube.com/watch?v=wljJGgIDry0 . Nada grande nem bonito, mas tem bastante de mim.

Felicidade pouca é bobagem, minha gente. Amo todos que, de alguma forma, participam daqui.

11 de jan. de 2007

If you find yourself caught in love

Colagem Nova #3

XI

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos
ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando 3
fios de teias de aranha.
A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?)


Manoel de Barros, mágico pantaneiro e cavalo de Bernardo - Livro das Ignorãças, 1993

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Primeira colagem do ano. E me prometi que ele me promete coisas boas - diferente do passado.

Não conheço outra poesia que diga tanto de algo tão meu - o silêncio, que sempre falo aqui. Então resolvi me colar nessa colgem. Ela me diz e diz de mim. Quem me conhece procure e ache os meus pedaços nela.

Bom ano, pra quem é de bom ano. Eu sou e quero que seja pra mim.

28 de nov. de 2006

Roy Walker


Colagem #4-2 (série antiga)

"A melhor maneira de evitar sofrimentos dessa espécie é não se apaixonar.
E, Além disso, sentirão falta dessa dor."

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Essa é a segunda versão de uma colagem feita com base nesta frase. Logo postarei uma terceira versão. A frase é um recorte extraído de um livro de ciências, aquelas de 6/7ª série, onde estudamos o reino animal. E como exemplifica bem o bicho que somos (leia-se "eu").
A paixão, pra mim, sempre foi mais dolorida do que deveriam ser, não importando a sua natureza: humana ou não humana. Ela disputara em mim o espaço com o silêncio. Mas ai de mim se fossem públicos todos os motivos das minhas paixões. Vendo bem, é como lavar o quintal de casa descalço e com aquelas mangueiras que saem, descontroladas, molhando tudo a sua volta. Sempre despejei minha paixão nos outros, sem medida das coisas.
Quase dois meses sem colocar as mão em colagens. Postarei as colagens antigas até que eu tenha tempo, vísceras e vontade e criar outras.

observação 1.> preciso molhar mais meus pés.
observação 2> preciso segurar melhor a mangueira.

rs


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"I wandered all night, I wondered all night about you

I’ve been here for years just wandering around the neighbourhood."

19 de set. de 2006

Slow like honey




Colagem Nova #2

"Percorro os cantos com os olhos:
uma teia
tecida
parece morta.
A parede tem um branco sujo.
Há uma traça também ali,
desconhece o meu olhar.
Chego ao limite do canto:
O poema não veio."

Flávia Santos, dada tida, a mulher completa: escreve coisas lindas (arrepios), pinta, desenha, estampa camisetas, joga futebol, faz russo e passa café.

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As colagens com os textos (entende-se poesias) da Flavinha estão prometidas desde maio. Vergonha, vergonha. Mas foi um custo parir essa colagem. No meio do processo a poesia não veio (rs). Um dia aprendo finalmente a lidar com prazos: seja pra colagens ou pro coração. Ou não.


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(And my big secret, going to win you over. Slow like honey, heavy with mood.)

5 de set. de 2006

Querência



Colagem #3 (série antiga)
"(...)
As ameaças havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio, cortando-as
como uma quilha corta as ondas."

Vladimir Maiakóvski, cubo-futurista-hiperbólico

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Sim, é muita querência.