11 de jan de 2010

Les herbes folles


Colagem #2/2010



Uma pessoa procura religião ou pelo amor ou pela dor, diz minha avó paterna. E, segundo ela, foi por motivos amorosos que ela passou a freqüentar a Seicho-No-Ie. Há mais de 30 anos ela acorda antes das 7h da manhã e faz as orações em japonês agradecendo os antepassados. Semanalmente comparece nas reuniões e prega para a família e conhecidos os benefícios dessa filosofia de vida – mas só nós, os mais próximos, sabemos que ela não aplica isso na própria vida. Durante os anos 90, o Clube Nissei Vicentino promovia reuniões da Seicho-No-Ie às segundas-feiras. Por um tempo, quando eu tinha pouco mais de 10 anos, minha mãe passou a participar destas reuniões também e, como eu não podia ficar sozinho em casa, ela me levava junto. Eu ajudava a arrumar as cadeiras de plástico antes do horário, a arrumar revistas e incensos nas mesas e ainda sei algumas músicas e orações de cor. Como não participava das cerimônias, eu ficava num canto desenhando ou às vezes com um primo ou alguma outra criança que também era obrigada a acompanhar os pais. Mas o máximo que eu conseguia ter de contato com alguma outra criança era pra pedir uma folha nova em branco ou algum lápis de cor e giz de cera. Mesmo assim só eu sabia o tanto que isso me custava: ficava ensaiando por muito tempo até ter coragem de falar com o outro menino, mesmo que fosse só pra pedir uma folha de papel.
Quando eu era pequeno tinha dificuldade para fazer amigos. Não sei se pela timidez (que ainda carrego até hoje, mas de uma forma bem resolvida) ou se por algum outro motivo desconhecido. Mas isso era fato: eu não tinha amigos. Lembro de inúmeros momentos em que meu pai me chamava no quarto pra conversar, fechava a porta e fazia a pergunta fatídica: por que eu não tinha amigos? E eu, com 8, 11, 12 anos, pelos tantos anos que essa situação se repetia, não sabia o quê responder e chorava.
No dia do meu aniversário de 7 anos, ganhei dois livros de colorir, uma régua da Turma da Mônica e duas canetas coloridas. Fiquei o dia inteiro sentado no quintal com meu cachorro, pintando o livro. Estes eram meus amigos: as canetas, o lápis, os livros de colorir, meu caderno de desenho e meu cachorro Apolo.
Fora eles, o que eu tinha de mais próximo de uma “amizade” eram os colegas da minha irmã, quatro anos mais velha. Quando meus pais deixavam, ia brincar com ela e seus colegas na rua. Essas relações me ensinaram coisas da vida: mesmo antes de pensar em dar meu primeiro beijo eu já sabia, pelas conversas que ouvia dos colegas mais velhos, o que era masturbação, sexo, menstruação, camisinha. Mesmo assim, eram amigos postiços. Não eram meus de verdade.
Um dia, ainda quando eu tinha 10 anos, fui com minha família numa reunião da Seicho-No-Ie. No final do encontro, junto com o lanche e café, vendiam-se incensos e livros com os ensinamentos e orações. Minha mãe, folheando um livro de orações de capa preta, achou algo e me chamou na hora pra ver. Estava lá, dividida em duas páginas: “Oração para fazer amigos”. Peguei o livro e li a oração uma vez. E li novamente, e por uma terceira e quarta vez. Lembro que, enquanto lia, pedia a “deus” – mesmo sem saber o que significava – para ele me ajudar a fazer amigos. Tentei decorar a “oração para fazer amigos” para poder repetir ela diariamente, até que conseguisse alcançar esta “graça”. Por dois ou três dias, eu acordava e repetia a oração. No outro dia já não me lembrava de algumas frases, até que me esqueci da oração por completo.
Nesses quase 15 anos algumas coisas mudaram. Logo depois apareceram os primeiros amigos – alguns deles presentes na minha vida até hoje. Por muito tempo, a idéia de perdê-los era como uma sensação de morte. Nunca consegui conceber a minha vida sem aquelas pessoas. Dentro desse medo, sempre me policiava para não desagradar ou falar alguma coisa errada. Para não ser rejeitado, fazia dos gostos deles os meus gostos. Só eu sabia o que foram os anos de criança solitária e quanto eles tinham me custado.
Ninguém sabe lidar bem com a rejeição. Quando levei um fora no meu primeiro namoro, custei 7 meses (e uma depressão) para superar a perda e entender que aquela não era a única pessoa do mundo.
Enquanto eu estava me recuperando de um fim de namoro não tão significativo, os outros estavam por aí experimentando coisas novas. De um lado eu vivia cheio de dedos para não decepcionar meus amigos e parentes, enquanto as outras pessoas, as que eu considerava “normais”, estavam por ai vivendo a sorte de todas as possibilidades de vida.
Demorei muito pra entender e respeitar meu tempo e minhas vontades, compreender que os processos da minha vida podem não ter a mesma velocidade que os dos outros.
Pensando agora, acredito que eu saiba por que me lembrei da “oração para fazer amigos”. Talvez naquele dia, no meu pedido inocente de criança, uma graça tenha sido concedida a mim. Foi ali que eu comecei uma grande amizade, a maior de todas, comigo mesmo. Uma pessoa procura religião ou pelo amor ou pela dor e, pela dor de ter vivido muito tempo sozinho, eu venho exercitando a minha fé em mim.
Em uma daquelas orações japonesas da qual ainda me lembro diz que você deve se reconciliar com todas as coisas do céu e da terra tudo se tornará seu amigo. Acredito que eu esteja no caminho.