29 de jul de 2010

O homem das geleiras ou providence

Colagem, acrílica e bordado sobre cartão | 26,5x35cm

Colagem #4/2010 

Pour l’homme des glaciers, elle la purifie, l’assoupit.

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"Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo."

Caetano Veloso, "Livros" – 1999

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"Depois ela contou-lhe seu sonho: estavam em algum lugar com Sabina. Num quarto enorme. No meio havia uma cama, parecia o cenário de um teatro. Tomas ordenou que ela ficasse num calito enquanto fazia amor com Sabina. Ela olhava e esse espetáculo lhe causava um sofrimento insuportável. Para sufocar a dor da alma com uma dor física, enfiou agulhas sob as unhas. Senti uma dor atroz disse ela, apertando os pulsos como se as mãos tivessem sido realmente machucadas. Ele apertou-a contra si e lentamente, sem parar de tremer, ela adormeceu em seus braços.”

Milan Kundera, "A Insustentável Leveza do Ser" – 1984 

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"Durante um segundo de lucidez, tive a certeza de que havíamos ficado loucos. Mas a esse segundo de lucidez se antepôs um supersegundo de superlucidez (se me permitem a expressão), em que pensei que aquela cena fosse o resultado lógico de nossas vidas absurdas. Não era um castigo, mas uma dobradura que se abria de repente para que nos víssemos em nossa humanidade comum. Não era a constatação de nossa ociosa culpabilidade, mas a marca de nossa milagrosa e inútil inocência. Mas não é isso." 

Roberto Bolaño, “Os Detetives Secretos” – 1999

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Das considerações sobre a procura angustiante pelo outro ou as escolhas entre viver com e viver só:
-  Estar só fortalece. 
- Para o homem das geleiras, ela a purifica, a suaviza. Ela, a providência. La providence, l’hasard.

15 de jul de 2010

A juventude

Pirógrafo, gouache e aquarela sobre madeira

Pirogravura #1/2010

27 de mai de 2010

Cache-cache

Colagem, hidrocor, nanquim e acrílica sobre papel | 24x34cm

Colagem #3/2010

“Cavalgava bem. Sou uma boa amazona, mas ele era tão bom quanto eu ou até melhor, não sei, naquele dia me pareceu melhor, galopar sem estribos é difícil, e ele galopou grudado no lombo do cavalo até que o perdi de vista. Enquanto esperava contei as guimbas que ele tinha apagado junto da cabana e fiquei com vontade de aprender a fumar. Horas depois, quando voltávamos no carro do meu pai, ele na frente, eu atrás, ele me disse que provavelmente debaixo daquelas terras jazia alguma pirâmide. Lembro que meu pai desviou o olhar da estrada para encará-lo. Pirâmide? É, ele disse, o subsolo deve estar cheio de pirâmides. Meu pai não fez nenhum comentário, eu, do escuro do banco de trás, perguntei por que ele achava isso. Ele não respondeu. Depois começamos a conversar sobre outros assuntos, mas fiquei pensando por que ele terá falado em pirâmides. Fiquei pensando nas pirâmides. Fiquei pensando no pedregal do meu pai, e muito tempo depois, quando não o via mais, cada vez que voltava àquelas terras ermas pensava nas pirâmides enterradas, pensava na única vez que o vira montando a cavalo sobre as pirâmides e também o imaginava na cabana durante o tempo em que ficara sozinho fumando.”

Roberto Bolaño, “Os Detetives Secretos”, pág. 149 - 1999


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“Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder
E quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr
E eu sinto aquela coisa no meu peito
Eu sinto aquela grande confusão
Eu sei que eu sou um vampiro que nunca vai ter paz no coração”

Caetano Veloso, "Vampiro" - Composição: Jorge Mautner - 1979
 
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"Quando terminei, não fez nenhum comentário. O que acha?, perguntei. Não sei, falou, e você, o que acha? Eu lhe disse então que achava que poetas eram uns hermafroditas e que só podiam se entender entre eles. Falei: os poetas são. Quis dizer: os poetas somos. Mas ele olhou para mim como se meu rosto não tivesse carne, fosse só uma caveira, olhou para mim sorrindo e disse: não seja cafona, Perla. Só isso. Empalideci, dei um pulo, só conseguiu me afastar um pouco, tentei me levantar e não pude, e durante esse tempo todo ele permaneceu imóvel, olhando para mim e sorrindo para mim, como se do meu rosto houvessem se desprendido a pele, os músculos, a gordura, o sangue, e só restasse o osso amarelo ou branco.

Roberto Bolaño, “Os Detetives Secretos”, pág. 170 - 1999
 

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"Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima"

Paulo Leminski, “Caprichos e Relaxos”, pág. 89 – 1983 

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Durante muito tempo eu não me era. Minha preocupação era “o outro”. Não existia necessariamente algo de filantrópico nisso. Talvez até o contrário. O medo era de decepcionar alguém. De magoar, trair, não merecer a confiança, desrespeitar, e, com isso, ser abandonado. Medo de ficar sozinho no mundo. Eu não existia sem ser através de alguém, sem um duplo, um companheiro. Um espelho.
Cada um que entrava na minha vida trazia a sensação de completude, de estar vivo. E quando ia embora, como a maré que baixa, levava tudo embora. Isso se repetia com amigos, amores, com todos e quaisquer que eu elegia. Cada partida era uma morte. Morri muitas vezes, de várias formas. Um dia, por conta de três, morri sete meses.
Enfim que o tempo, amigo, foi legal comigo e me ensinou algumas coisas. Não me deixo mais morrer por ninguém. Hoje, quem vem, se vai e anda - não me leva. Este que veio, ficou e fez do meu coração residência habitável (com tanta docura) também está indo agora. Mas o que existiu em comum ainda existe. Não encaixoto nada, não escondo fotos, nem apago mensagens, nem finjo que momentos divididos não aconteceram. Aconteceram e foram muito bem acontecidos.
Semana passada a Marília Gabriela disse numa entrevista que o amor, assim como a batata, também acaba. Acaba? Não que eu saiba. Eu escolhi não morrer, nem matar, mas transformar ele em rima, dentro de mim.
Hoje o que existe no meu peito é um buraco. Um tiro de 12, de saudades de coisas que foram e não vão se repetir. Alguém disse que a dor é certa, mas o sofrimento é opção. Mesmo nos momentos de dor certa, se me perguntarem “como vai?”, vou bem, ça va, ça marche. Mas é um jogo de esconde-esconde, cache-cache, enquanto o tempo se encarrega de fechar buracos e fazer nascerem as batatas.

2 de mar de 2010

Avesso

bordado sobre cartão

Bordado #1/2010

Eu queria que a mão do amor
Um dia trançasse
Os fios do nosso destino
Bordadeira fazendo tricô
Em cada ponto que desse
Amarrasse a dor
Feito quem faz um crochê
Uma renda um filó
Unisse as pontas do nosso querer
E desse um nó

Maria Bethânia, "A Mão do Amor" - Composição: Roque Ferreira

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O mais importante do bordado
É o avesso
É o avesso
O mais importante em mim
É o que eu não conheço
O que eu não conheço

Maria Bethânia, "O que eu não conheço" - Composição: Jorge Vercilo e J. Velloso


11 de jan de 2010

Les herbes folles


Colagem #2/2010



Uma pessoa procura religião ou pelo amor ou pela dor, diz minha avó paterna. E, segundo ela, foi por motivos amorosos que ela passou a freqüentar a Seicho-No-Ie. Há mais de 30 anos ela acorda antes das 7h da manhã e faz as orações em japonês agradecendo os antepassados. Semanalmente comparece nas reuniões e prega para a família e conhecidos os benefícios dessa filosofia de vida – mas só nós, os mais próximos, sabemos que ela não aplica isso na própria vida. Durante os anos 90, o Clube Nissei Vicentino promovia reuniões da Seicho-No-Ie às segundas-feiras. Por um tempo, quando eu tinha pouco mais de 10 anos, minha mãe passou a participar destas reuniões também e, como eu não podia ficar sozinho em casa, ela me levava junto. Eu ajudava a arrumar as cadeiras de plástico antes do horário, a arrumar revistas e incensos nas mesas e ainda sei algumas músicas e orações de cor. Como não participava das cerimônias, eu ficava num canto desenhando ou às vezes com um primo ou alguma outra criança que também era obrigada a acompanhar os pais. Mas o máximo que eu conseguia ter de contato com alguma outra criança era pra pedir uma folha nova em branco ou algum lápis de cor e giz de cera. Mesmo assim só eu sabia o tanto que isso me custava: ficava ensaiando por muito tempo até ter coragem de falar com o outro menino, mesmo que fosse só pra pedir uma folha de papel.
Quando eu era pequeno tinha dificuldade para fazer amigos. Não sei se pela timidez (que ainda carrego até hoje, mas de uma forma bem resolvida) ou se por algum outro motivo desconhecido. Mas isso era fato: eu não tinha amigos. Lembro de inúmeros momentos em que meu pai me chamava no quarto pra conversar, fechava a porta e fazia a pergunta fatídica: por que eu não tinha amigos? E eu, com 8, 11, 12 anos, pelos tantos anos que essa situação se repetia, não sabia o quê responder e chorava.
No dia do meu aniversário de 7 anos, ganhei dois livros de colorir, uma régua da Turma da Mônica e duas canetas coloridas. Fiquei o dia inteiro sentado no quintal com meu cachorro, pintando o livro. Estes eram meus amigos: as canetas, o lápis, os livros de colorir, meu caderno de desenho e meu cachorro Apolo.
Fora eles, o que eu tinha de mais próximo de uma “amizade” eram os colegas da minha irmã, quatro anos mais velha. Quando meus pais deixavam, ia brincar com ela e seus colegas na rua. Essas relações me ensinaram coisas da vida: mesmo antes de pensar em dar meu primeiro beijo eu já sabia, pelas conversas que ouvia dos colegas mais velhos, o que era masturbação, sexo, menstruação, camisinha. Mesmo assim, eram amigos postiços. Não eram meus de verdade.
Um dia, ainda quando eu tinha 10 anos, fui com minha família numa reunião da Seicho-No-Ie. No final do encontro, junto com o lanche e café, vendiam-se incensos e livros com os ensinamentos e orações. Minha mãe, folheando um livro de orações de capa preta, achou algo e me chamou na hora pra ver. Estava lá, dividida em duas páginas: “Oração para fazer amigos”. Peguei o livro e li a oração uma vez. E li novamente, e por uma terceira e quarta vez. Lembro que, enquanto lia, pedia a “deus” – mesmo sem saber o que significava – para ele me ajudar a fazer amigos. Tentei decorar a “oração para fazer amigos” para poder repetir ela diariamente, até que conseguisse alcançar esta “graça”. Por dois ou três dias, eu acordava e repetia a oração. No outro dia já não me lembrava de algumas frases, até que me esqueci da oração por completo.
Nesses quase 15 anos algumas coisas mudaram. Logo depois apareceram os primeiros amigos – alguns deles presentes na minha vida até hoje. Por muito tempo, a idéia de perdê-los era como uma sensação de morte. Nunca consegui conceber a minha vida sem aquelas pessoas. Dentro desse medo, sempre me policiava para não desagradar ou falar alguma coisa errada. Para não ser rejeitado, fazia dos gostos deles os meus gostos. Só eu sabia o que foram os anos de criança solitária e quanto eles tinham me custado.
Ninguém sabe lidar bem com a rejeição. Quando levei um fora no meu primeiro namoro, custei 7 meses (e uma depressão) para superar a perda e entender que aquela não era a única pessoa do mundo.
Enquanto eu estava me recuperando de um fim de namoro não tão significativo, os outros estavam por aí experimentando coisas novas. De um lado eu vivia cheio de dedos para não decepcionar meus amigos e parentes, enquanto as outras pessoas, as que eu considerava “normais”, estavam por ai vivendo a sorte de todas as possibilidades de vida.
Demorei muito pra entender e respeitar meu tempo e minhas vontades, compreender que os processos da minha vida podem não ter a mesma velocidade que os dos outros.
Pensando agora, acredito que eu saiba por que me lembrei da “oração para fazer amigos”. Talvez naquele dia, no meu pedido inocente de criança, uma graça tenha sido concedida a mim. Foi ali que eu comecei uma grande amizade, a maior de todas, comigo mesmo. Uma pessoa procura religião ou pelo amor ou pela dor e, pela dor de ter vivido muito tempo sozinho, eu venho exercitando a minha fé em mim.
Em uma daquelas orações japonesas da qual ainda me lembro diz que você deve se reconciliar com todas as coisas do céu e da terra tudo se tornará seu amigo. Acredito que eu esteja no caminho.