17 Setembro 2009

Diamante verdadeiro

alta resolução

Retrato #1 - Les Petits Serins

“Voilà mon petit jaunet, mon petit serin, qui va rendre sa maman aussi bêtasse que lui, pour peu que cela continue.”

“Deveria sentir-me feliz e não o era. Parecia-me que minha mãe acabava de me fazer uma primeira concessão que lhe deveria ser dolorosa, que era uma primeira abdicação de sua parte ao ideal que concebera para mim, e que pela primeira vez, ela, tão corajosa, se confessava vencida. (...) Por certo, o belo rosto de minha mãe ainda brilhava de juventude naquela noite em que me prendia tão docemente as mãos e procurava estancar o pranto; mas parecia-me que não deveria ser assim, que sua cólera me deveria ser menos triste do que aquela recente brandura que minha infância desconhecera; e que, com minha mão sacrílega e furtiva, eu acabava de traçar-lhe na alma a primeira ruga e de ali fazer surgir o primeiro fio de cabelo branco. Essa idéia redobrou meus soluços e então vi mamãe, que nunca se deixava arrastar comigo a excessos sentimentais, dominada de súbito por minha comoção e tentando reter o desejo de chorar. Como sentisse que eu o havia notado, disse-me a rir: "Olha só o meu canarinho, que já ia tornando a sua mamãe tão boba com ele! Vamos ver, já que não tens sono, nem tua mamãe tampouco, deixemos de nervos, façamos alguma coisa, vamos pegar um dos teus livros"."

Marcel Proust - "À La Recherche du Temps Perdu: Du cotê de chez Swan", 1913

***

"Eu sou primeiro, eu sou mais leve, eu sou mais eu
Do mesmo modo como é verdadeiro
O diamante que você me deu."

Caetano Veloso - "Diamante Verdadeiro", 1978

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Comecei a ler o "No caminho de Swann", primeiro volume da obra do Marcel Proust, "Em Busca do Tempo Perdido". Ao todo, são quase 3000 páginas divididas em 7 volumes que Proust escreveu durante 14 anos e que, ainda assim, morreu sem concluir. É a obra de sua vida. Proust criou um universo meticuloso sem precedentes, uma catedral em torno do "herói" do livro - e si próprio. “No caminho de Swann” aborda psicologicamente assuntos como a obsessão amorosa, o ciúme, incesto e homossexualidade, além de ser um relato sobre a alta sociedade. Mas, principalmente, a obra é um retrato detalhado sobre como ter novos olhos e olhares sobre os assuntos mais humanos possíveis. Demasiadamente humanos.
Tudo que está ali naquelas páginas pode (e deveria) ser experimentado. Aqueles relatos tocam em algo que independe da vontade: a nossa natureza. Aborda os sentimentos mais humanos (e "desumanos"?) com tamanha propriedade que a experiência do autoconhecimento ganha um gosto de novidade. Não sei se um dia conseguirei ler a obra toda. Talvez se leve uma vida inteira pra se ler na íntegra, e mais outra vida pra realmente entender como se pede. E como se deve.
A primeira parte do livro se destina às memórias do “nosso herói” quando criança. Os dias passados na casa de campo da família em Combray, junto aos parentes e do contato com o vizinho Swann – aquele através do qual o protagonista passa a enxergar o mundo. Nisso, revelam-se as dinâmicas das relações familiares: a obsessão pelo amor de sua mãe, a forma como sua avó coage o menino através do amor e o medo exercido pela figura paterna. O “herói” passa o dia inteiro ansiando pela chegada da noite, onde sabe que sua mãe vira ao seu quarto dar-lhe um beijo. E aquele é um momento mágico para o menino. Aqueles segundos dos lábios da mãe tocando seu rosto justificam a existência de tudo, de todas as horas angustiantes de espera. A mãe, vendo o sofrimento do filho diante do mundo, se emociona e resolve ler para o menino algumas fábulas infantis.
Há algumas semanas, alguém no twitter (não lembro quem) comentou que estava lendo o livro “O Clube do Filme”, do crítico de cinema canadense David Gilmour - e pensando em abandonar a leitura por não se julgar lá muito cinéfilo. Por esses dias, encontrei o livro numa vitrine e resolvi comprar. Quando o filho de David Gilmour tinha 15 anos, ambos enfrentavam uma fase turbulenta. Gilmour desempregado e sem vislumbrar qualquer oportunidade de colocação profissional, enquanto o filho tinha um péssimo rendimento escolar e não conseguia se encaixar dentro daquele começo de realidade “adulta”. Foi quando Gilmour tomou a decisão inesperada de tirar o filho da escola, com a condição que os dois passassem a assistir juntos pelo menos três filmes por semana. O cinema como forma de enxergar a vida: esse é o livro. E logo na orelha, o autor fala que fez uma entrevista com o cineasta David Cronenberg e, ambos com filhos crescidos, começaram a conversar sobre o processo da vida adulta. Gilmour falou que ter filhos, educá-los, implica em uma despedida após a outra: o adeus às fraldas, à mamadeira, à vida escolar, à família, à casa. O adeus ao ninho. E o Cronenberg deixou a pergunta: “mas será que realmente eles se despedem de casa?”.
Não tenho lá muita intimidade com crianças, dificilmente consigo me aproximar delas. Entretanto, gosto de observá-las de longe. E sempre acabo enxergando uma pontada de aflição no olhar de várias. A mim parece como um grito pra dentro, um grito de desamparo. A criança chora, a mãe palpita que deve ser por fome ou sono. Mas sempre acho que ali tem um apelo desesperado. Um pedido primitivo de socorro: como não se conhece o sentimento (nem a dor da experiência), só resta o choro. É um pedido que não pode ser atendido. Por mais que se receba todo amor do mundo, estamos fadados a conviver com o desamparo. Constantemente sair de ninhos, mesmo sem saber voar. E entre o ninho do alto da árvore e o ponto aonde se quer chegar (ou se obriga a chegar) existe o sentimento da queda.
Esses são “os meus pequenos canários” da ilustração. Como eles não sabem viver, gritam através dos olhos. Seus cabelos e roupas são vivos, mas o que fazer com a vida? Entre um ninho e outro, entre uma falta de chão e outra, alguém nos conta uma fábula e tudo fica bem. Mas e quanto não se tem ninguém pra nos contar historias, só nos resta a nossa vida.

05 Março 2009

nunca é tarde pra chegar na festa


Colagem #01/2009

"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? E isso que faz con que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca."

(...)

"Para que o sentido dessas palavras ficasse absolutamente claro, Beethoven colocou antes do último movimento, a frase: Der schwer gefasste Entschluss - a decisão gravemente medida. A alusão a Beethoven era, na verdade, para Tomas um meio de voltar a Tereza, pois fora ela quem o forçara a comprar os discos dos quartetos e das sonatas de Beethoven.
Essa alusão era mais oportuna do que ele imaginava, pois o diretor era melômano. Com um sorriso sereno, res pondeu suavemente, imitando o som da melodia de Beethoven: Muss es sein? Tem de ser assim?
Tomas disse mais uma vez: Sim, tem de ser! Ja, es muss sein!"

Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser, 1984

***

"A Insustentável Leveza do Ser" foi o livro da minha vida de 2008. Durante anos tive curiosidade de ler, mesmo sem saber do que se tratava. Mas acho que não poderia ter lido em momento mais adequado: o livro cersiu e pontuou um momento de grande mudança em mim.
Por conta de uma sucessão de acasos ou por suas próprias escolhas, os quatro personagens - Tereza, Tomas, Sabina e Franz - experimentam de maneiras diferentes o peso e a leveza que delineia a vida. Tereza, sempre à sombra da figura cruel da mãe - a materialização das mazelas humanas. O relacinamento de Tereza e Tomas: a dor, a culpa, a obrigação de estarem juntos, a depedência, a impotência, a inércia. Sabina, cujo único objetivo (e orgulho) da vida era trair a tudo-e-todos, sem saber que estava se traindo. A metamorfose de Franz, o golpe transformador, a libertação, a independência. Tudo passava muito próximo de mim. Todos os personagens me eram, de alguma forma. E ali, no momento em que os fazia viver, eles estavam vivendo os seus momentos de redenção (para o bem ou para o mal) e eu os meus.
Passei um bom tempo da vida achando que eu era capaz de ajudar as pessoas próximas a mim. Ou pior: através de mim, elas poderiam se tornar alguém melhor. Algo que, se tivesse um nome, seria "prepotência infantilizada". E foram anos nessa história e inúmeras as pessoas (entre amigos, parentes, etc) que, diretamente ou não, participaram disso. Isso era praticado de várias formas possíveis, a ponto de viver situações pela pessoa ou estacionar a minha vida. E "ai" de quem dentro desta bolha recusasse essas minhas manifestações de "amor". Eu achava que era "amor", só hoje vejo que era falta - pelos outros e a mim mesmo.
Uma vez não conta, uma vez é nunca. Einmal ist keimnal. O primeiro ensaio da vida ja é a própria vida. Como aprender com os erros, sendo que as oportunidades nunca se repetem, jamais serão as mesmas? Como corrigir o erro dos outros quando quase para fazer os nossos próprios acertos são quase nulas?
A gente cresce e aprende algo óbvio e honesto: as pessoas só mudam quando querem. Elas carregam os seus motivos, expectativas, ansiedades somente até o momento que quiserem. Nossas costas são largas o suficente para aguentar o peso que colocamos nelas (repito, nós colocamos), mas inconscientemente ou não, sabemos o limite. Sabemos o limite entre o peso e a leveza insustentável.
No primeiro capítilo do livro, Kundera fala do "eterno retorno" do Nietzsche. Sem muitas firulas, toca no "einmal ist keinmal" de Tomas, pontuando que uma vida que desaparece não tem o menor sentido. Diante de tantas escolhas, a verdade entre aqueles personagens é a busca pela existência a qualquer custo, a busca por algum sentido para existir. E é isso que pontua hoje a minha vida. A MINHA vida. Muss es seis? Es muss ein!

27 Dezembro 2008

beat goes on


Colagem #02/2008

la fruit de la pass_on

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Comprovantes e tickets de pagamento, post-it, páginas de lista telefônica e caneta esferográfica
Estou fazendo algumas tentativas para deixar de lado algumas limitações que me imponho - nas colagens e na vida.
Taí um projeto de primeira.

***

ÓTIMO 2009 pra todos que leem esse blog e a mim!
=)

22 Outubro 2008

moto-contínuo


Colagem #01/2008
"Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
antigamente eu era eterno"

Paulo Leminski - Distraídos Venceremos, 1987


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No começo de 2007, assisti o "Maria Antonieta", da Sofia Coppola, em um festival de cinema em Santos, logo depois da inauguração do Espaço Unibanco aqui. Surpreendentemente, a exibição aconteceu semanas antes da estréia do filme no Brasil – fato raríssimo.
Como bom geminiano, fiquei curioso pelo filme depois das vaias em Cannes e opiniões controversas em tudo quanto era lugar. Entrei na sessão sem nada além da curiosidade e saí bem satisfeito: o quase retrato onírico da realidade (como em "Encontros e Desencontros"), a abordagem pessoal da personagem/História, os figurinos exuberantes, a pegada pop e tudo mais. Mas não conseguia digerir lá muito bem o que a Coppola queria com aquela quebra da narrativa do meio para o final do filme: as informações truncadas e a perda de cadência das ações provocaram uma estranheza, que muita gente na sala de cinema preferiu enquadrar como falta de habilidade da diretora. E ponto.
Fiquei com aquele final na cabeça e no estômago por uma semana, até que uma conversa com um amigo ajudou a encaixar as peças que faltavam. Em 2003, a Sofia Coppola registrou o acaso e infortúnios num momento da vida de dois personagens americanos desnorteados em Tóquio no "Encontros e Desencontros". Longe do país de origem, os personagens encontravam o incomum nas barreiras da comunicação, espaço-tempo, nas diferenças visuais e escolhas mais básicas como um copo de bebida. São personagens que não pertencem àquele espaço, e, indo além, não pertencem nem a si próprios. "Encontros e Desencontros" é um grande retrato de duas pessoas que não sabem onde-estão-e-para-onde-vão e por isso resolvem andar de mãos dadas.
Não tão distante destas figuras está a Maria Antonieta da H(h)istória. Com apenas 14 anos, distante de casa, prestes a se casar e ter a responsabilidade de administrar um país, mesmo sem ter maturidade para reger a própria vida. Toda a estranheza do final do filme é uma transcrição deste sentimento de não-pertencimento por parte de uma criança. Todos nós passamos por um momento na vida onde nos deparamos com "o mundo", com o terrível fato que a nossa vida está em nossas mãos. No filme, aquele momento de estranheza é o período de suspensão na qual o personagem está: um passo antes da perda da inocência, a transição entre a infância e a vida adulta.
Naquele momento, o filme veio de encontro a um turbilhão de coisas que eu estava vivendo: 2007 foi o meu ano da estranheza, o fim de um grande período de não-pertencimento que se arrastava há tempos. Não me sentia parte de nada, nem de mim. Culpava o mundo pela forma como minha vida se arrastava por aí, sem vontade. Nesse ano moribundo, somado ao fim da minha faculdade, tive problemas de estresse, perda de memória, dificuldade de concentração, e etc. Foram verdadeiros dias de Gena Rowlands no "Uma Mulher Sob Influência".
Além de todo o mal-estar comigo e com o mundo, eu fazia questão desfilar a minha tristeza por aí. Era um fantasma arrastando bolas de ferro por onde andava. Hoje consigo ler isso de outra forma – me faltava maturidade, coragem pra ver que a minha vida estava gritando para ser gerida e só eu poderia fazer isso. E ter a consciência disso mudou tudo.
O que seguiu foi um momento único de autoconhecimento, um mergulho grande e profundo. Foi o ano de colocar as cartas na mesa e ver o que ainda valia a pena continuar e o que já tinha morrido. E quanto já não fazia mais sentido. Com isso, também aprendi a treinar o desapego e exercitar a objetividade. Se tornou mais fácil fazer escolhas dessa forma. O ano de 2007 me obrigou a crescer e, apesar do medo diante da maior novidade da minha vida (ela própria), hoje quem me conhece sabe o quanto faço questão de gritar felicidade aos quatro ventos.
Esta colagem demorou quase dois anos para vir à luz. Não devido à complexidade da coisa, claro, mas por pura falta de tempo e organização. Ela acompanhou todo esse meu processo recente. Durante quase um ano, recolhi folhas de árvores por onde passei. Improvisei uma prensa no meio da minha sala usando duas listas telefônicas, jornais e o móvel do telefone, onde ficaram secando por semanas e depois se transformaram nesse peixe. Os ramos saindo da boca dele, que crescem e vão ficando coloridos, foram bordados à mão durante semanas – à custa de muitos furos nos dedos. E por último o carimbo, feito à mão, esculpido em borracha escolar.
Esse menino, segurando um peixe morto que cospe promessas de algo melhor, tem muito de mim. Além de ter as minhas células (rs) e as marcas do tempo, ele leva pra longe esses tempos vividos sem muita gana, representa o fim dos meus anos de suspensão. Cada ponto das flores bordadas e dos pedaços de folhas secas são testemunhas de um sentimento único, algo que nunca viverei novamente, já que o momento é outro – o de não ser eterno.
Noves fora, o desafio de hoje é saber o que fazer com as cartas em mão, sejam elas novas ou as que tiveram a sua fé renovada. Talvez eu ainda tenha muito de menino, mas o peixe que tenho nas mãos hoje é meu – infinitamente meu – e sei como extrair felicidade dele.

Não pretendo transformar isso num blog de auto-ajuda ou crítica de filmes. Minha única preocupação hoje é com a sinceridade – em mim e em tudo.

Um beijo pra quem é de beijo.
E estou de volta!

=)

01 Agosto 2007

Celebração à engenharia elétrica e termodinâmica das paixões



Oh, L'amour!

Não queria machucar-te,
queria dar-te um beijo e um mar sem sal.
Uma pitada de sal, numa salada verde e então
me enganar de vez com você.

Fernando Paiva, jornalista, guitarrista, escritor, compositor e vários et cetera - "Mar sem sal", luisa mandou um beijo.

***

Existe uma colagem em trabalho de parto desde junho, mas logo vem à luz. Enquanto isso, o convite da festa do amor (ou da paixão? ou da dor?), na casa do Giovani. Bacana fazer o convitinho, festa mais bacana ainda. Dias de celebrar paixões - as que sempre começam e as que nunca terminam.

Se foram mais de seis meses depois da última colagem de fato. E eu prometi que "me" seria um ano bom. Nada extraordinariamente novo. Mas outro dia me peguei chorando no ônibus, de felicidade.

obervação para a posteridade 1.> não tentar controlar o cavalo, senão ele me morde.

***

Cinema

Não era a primeira vez e nem seria a última que ela passava aquele batom com brilho. Por mais que Olavo repetisse a todo instante o quanto detestava a textura e o sabor daquilo durante os beijos.
- Você está atrasada de novo, Luisa! Assim vamos perder a sessão!
- Eu não me importo, Olavo. Já vimos esse filme quatro vezes.

idem.

***

Naquela noite, você quis me beijar e eu disse: "SIM!".
Naquela noite, você quis me beijar e eu disse: "sim".
Naquela noite, você quis me beijar e eu disse: "pois não".

ibidem.

16 Maio 2007

um aviso

Para as pessoas queridas que frequentam aqui: desde janeiro que não posto colagens. Esse é um ano de terminar coisas grandes (segundo o horóscopo que recebo por e-mail). Por isso a ausência. Desculpem.
Estou na metade de uma colagem nova, que quero postar logo. Faz falta pra mim.
Por enquanto, o que eu tenho é isso: http://www.youtube.com/watch?v=wljJGgIDry0 . Nada grande nem bonito, mas tem bastante de mim.

Felicidade pouca é bobagem, minha gente. Amo todos que, de alguma forma, participam daqui.

11 Janeiro 2007

If you find yourself caught in love

Colagem Nova #3

XI

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos
ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando 3
fios de teias de aranha.
A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?)


Manoel de Barros, mágico pantaneiro e cavalo de Bernardo - Livro das Ignorãças, 1993

***

Primeira colagem do ano. E me prometi que ele me promete coisas boas - diferente do passado.

Não conheço outra poesia que diga tanto de algo tão meu - o silêncio, que sempre falo aqui. Então resolvi me colar nessa colgem. Ela me diz e diz de mim. Quem me conhece procure e ache os meus pedaços nela.

Bom ano, pra quem é de bom ano. Eu sou e quero que seja pra mim.

28 Novembro 2006

Roy Walker


Colagem #4-2 (série antiga)

"A melhor maneira de evitar sofrimentos dessa espécie é não se apaixonar.
E, Além disso, sentirão falta dessa dor."

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Essa é a segunda versão de uma colagem feita com base nesta frase. Logo postarei uma terceira versão. A frase é um recorte extraído de um livro de ciências, aquelas de 6/7ª série, onde estudamos o reino animal. E como exemplifica bem o bicho que somos (leia-se "eu").
A paixão, pra mim, sempre foi mais dolorida do que deveriam ser, não importando a sua natureza: humana ou não humana. Ela disputara em mim o espaço com o silêncio. Mas ai de mim se fossem públicos todos os motivos das minhas paixões. Vendo bem, é como lavar o quintal de casa descalço e com aquelas mangueiras que saem, descontroladas, molhando tudo a sua volta. Sempre despejei minha paixão nos outros, sem medida das coisas.
Quase dois meses sem colocar as mão em colagens. Postarei as colagens antigas até que eu tenha tempo, vísceras e vontade e criar outras.

observação 1.> preciso molhar mais meus pés.
observação 2> preciso segurar melhor a mangueira.

rs


***

"I wandered all night, I wondered all night about you

I’ve been here for years just wandering around the neighbourhood."

19 Setembro 2006

Slow like honey




Colagem Nova #2

"Percorro os cantos com os olhos:
uma teia
tecida
parece morta.
A parede tem um branco sujo.
Há uma traça também ali,
desconhece o meu olhar.
Chego ao limite do canto:
O poema não veio."

Flávia Santos, dada tida, a mulher completa: escreve coisas lindas (arrepios), pinta, desenha, estampa camisetas, joga futebol, faz russo e passa café.

***

As colagens com os textos (entende-se poesias) da Flavinha estão prometidas desde maio. Vergonha, vergonha. Mas foi um custo parir essa colagem. No meio do processo a poesia não veio (rs). Um dia aprendo finalmente a lidar com prazos: seja pra colagens ou pro coração. Ou não.


***

(And my big secret, going to win you over. Slow like honey, heavy with mood.)

05 Setembro 2006

Querência



Colagem #3 (série antiga)
"(...)
As ameaças havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio, cortando-as
como uma quilha corta as ondas."

Vladimir Maiakóvski, cubo-futurista-hiperbólico

***

Sim, é muita querência.



16 Agosto 2006

Haicai


Colagem #2 (série antiga)
ANDAIMES
"Na gaiola cheia
(pedreiros e
carpinteiros)
o dia gorjeia."

Guilherme de Almeida, ritmista

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coração PRA CIMA, escrito em baixo FRÁGIL.

03 Agosto 2006

Colagem Nova #1


Colagem Nova #1
"Eu escrevo com o corpo
Poesia não é para compreender
Mas para incorporar
Entender é parede: procure ser uma árvore"

Manoel de Barros, mágico pantaneiro.

***

( Voltei a ter vontade, tempo e estômago para fazer colagens. Postarei as peças novas e as antigas, intercaladas. Do resto - que não é tão resto assim - tudo caminha nas linhas finas do tear do destino. Vivendo dias de árvore, sabe. Tudo fica mais suave quando o Bernardo, do Manoel, te ensina a esticar horizontes - e noites - usando três fios de teias de aranha.)